domingo, 21 de agosto de 2016

Cuba é uma nação socialista - Fidel Castro - Parte II

Leia a Parte I.

Discurso Pronunciado por Fidel Castro em  1º de Maio de 1961

"...

Não há Tempo para Eleições

Houve um período para a abolição de privilégios. As pessoas agora tem tempo para eleições? Não! O que eram os partidos políticos? Só uma expressão dos interesses de classe. Aqui só há uma classe, a humilde; aquela classe está no poder, então ela não está interessada na ambição de um minoria exploradora de voltar ao poder. Aquelas pessoas não teriam nenhuma chance em uma eleição. A revolução não tem tempo a perder com esse tipo de tolices. Não há chance para a classe exploradora reconquistar o poder. A revolução e povo sabem que a revolução expressou sua vontade; a revolução não vem ao poder com armamento ianque. 

Ela vem através da vontade do povo em luta contra todo tipo de armamento, armamento ianque.

A revolução mantêm-se no poder através do povo. No que o povo está interessado? Em fazer a revolução avançar sem perder um só minuto. (Aplausos) Pode qualquer governo na América afirmar ter mais apoio popular que esse? Por que a democracia deve ser essa pedante e falsa democracia dos outros, ao invés dessa direta expressão da vontade do povo? As pessoas morrem lutando ao invés de ir a uma eleição para escrever nomes em um papel. A revolução deu a cada cidadão uma arma, uma arma a todo homem que quis entrar na milícia. Então algum tolo vem para perguntar se, tendo a maioria por que nós não fazemos eleições? Porque o povo não se importa de satisfazer tolos e pequenos finos cavalheiros! As pessoas estão interessadas em avançar.
Eles não tem tempo a perder. O povo deve gastar uma quantidade tremenda de energia se preparando contra agressões, enquanto todos sabemos que queremos construir escolas, casas e fábricas. Não não somos belicosos. Os ianques gastam a metade de seu orçamento em armamento; não somos belicosos. Nós somos obrigados a despender aquelas energia, por causa dos imperialistas. Não temos ambições expansionistas. Não queremos explorar nenhum trabalhador de nenhum país. Não estamos interessados em planos agressivos; fomos forçados a ter tanques, aviões, metralhadoras e força militar para nos defender.
A recente invasão mostra o quão corretos estamos em nos armar. Em Playa Giron eles vieram para matar camponeses e trabalhadores. O imperialismo forçou-nos ao armamento para nossa defesa. Fomos forçados a colocar energia, materiais e recursos nisso, embora preferiríamos colocar esses recursos em mais escolas, para que em futuros desfiles possa existir mais atletas e estudantes. Se nosso povo estivesse desarmado, eles não poderiam ter esmagado os mercenários que vieram com equipamentos modernos.
Os imperialistas teriam se lançado contra nós a muito tempo se não nos tivéssemos armado. Mas nós preferimos morrer antes de render o país que temos agora. Eles sabem disso. Eles sabem que encontrarão resistência e então os círculos agressivos do imperialismo devem parar e pensar.
Então somos forçados, pela ameaça de agressão a proclamar aos quatro cantos do mundo: Todo o povo da América deveria se elevar em indignação depois da afirmação de que um país pode intervir em outro só por causa o primeiro é mais forte. Tal política significaria que o vizinho mais poderoso tem o direito de intervir para evitar um povo de se autogovernar de acordo com sua escolha. É inconcebível que deveriam existir miseráveis governos como esses; depois da agressão que matou trabalhadores e camponeses, é inconcebível que eles até mesmo tenham começado uma política de romper com Cuba, ao invés de romper com Somoza, Guatemala, ou o governo de Washington que paga por aviões, tanques e armamentos para vir aqui e matar camponeses.
O governo da Costa Rica disse que, se os mercenários fossem executados, romperia relações conosco. Eles não tem razão alguma para romper, então buscam um pretexto, nesse caso escolhendo  a questão das execuções.
Aqueles que promovem a política de usar Cuba, às ordens do imperialismo, são traidores miseráveis aos interesses e sentimentos da América. (Aplausos) Esses fatos mostram-nos a política podre que prevalece em muitos países latino americanos, e como a revolução cubana inverteu essas formas corruptas para estabelecer novas formas nesse país.
Nova Constituição Socialista
Para aqueles que falam a nós sobre a Constituição de 1940, nós respondemos que a Constituição de 1940 está datada e velha para nós. Nós avançamos muito rápido para aquela pequena seção da Constituição de 1940, que era boa para o seu tempo, mas nunca foi posta em prática. Aquela constituição foi ultrapassada pela revolução, que como dissemos, é uma revolução socialista. Devemos sim falar de uma nova constituição, uma nova constituição, mas não uma constituição burguesa, não uma constituição que corresponda a dominação e exploração de certas classes, mas uma constituição que corresponda a um novo sistema social sem a exploração do homem sobre o homem. O novo sistema social é chamado de socialismo e essa constituição será, consequentemente, uma constituição socialista.

Protesto de Kennedy
Se o Sr. Kennedy não gosta de socialismo, nós não gostamos de imperialismo! Nós não gostamos de capitalismo! Nós temos todo direito de protestar sobre a existência de um regime capitalista-imperialista a 90 milhas de nossa costa. No passado e agora, nós não pensamos em protestar em relação a isso, porque isso é coisa do povo dos Estados Unidos. Seria absurdo para nós tentarmos contar para o povo dos Estados Unidos que sistema de governo eles deveriam ter, nesse caso nós estaríamos considerando que os Estados Unidos não são uma nação soberana e que nós temos direitos sobre a vida política interna dos Estados Unidos.
Direitos não vem com tamanho. Direitos não vem do fato de um país ser maior que o outro. Isso não importa. Nós temos um território limitado, uma pequena nação, mas nosso direito é tão respeitável quanto o de qualquer país, independentemente do tamanho. Não nos passa pela cabeça falar para o povo dos Estados Unidos qual sistema de governo eles devem ter. Portanto, é absurdo o Sr. Kennedy nos falar qual governo ele quer que estabeleçamos aqui. Isso é absurdo. Sr. Kennedy faz isso por não ter um conceito claro de leis internacionais nem de soberania. Quem teve essas ideias antes de Kennedy? Hitler e Mussolini!
Eles falaram a mesma língua, a da força; é a língua fascista. Nós ouvimos anos antes do ataque da Alemanha sobre a Czechoslovakia. Hitler a dividiu pois era governada por um governo reacionário. A burguesia, reacionária e protofascista, com medo do avanço do sistema socialista, preferiu até a dominação de Hitler. Nós ouvimos aquela linguagem na véspera da invasão a Dinamarca, Bélgica, Polônia e assim por diante. É o direito do poder. Esse é o único direito que Kennedy sugere quando declara o direito a interferência em nosso país.
Esse é um sistema socialista, sim! Sim, esse é um regime socialista. Está aqui, mas a culpa não é nossa, a culpa e é de Colombo, dos colonizadores ingleses, os colonizadores espanhóis. O povo dos Estados Unido algum dia ficará cansado.

Nenhuma ameaça aos Estados Unidos

O governo dos Estados Unidos diz que um regime socialista aqui ameaça a segurança dos Estados Unidos. Mas o que ameaça a segurança do povo da América do norte é a política agressiva dos belicistas dos Estados Unidos. O que ameaça a segurança da família da América do norte e seu povo é a violência, a política agressiva, aquela política que ignora a soberania e os direitos dos outros povos. Aquela política agressiva pode levar a uma guerra mundial; e a guerra mundial pode custar as vidas de dezenas de milhões de norte americanos. Portanto, aquele que ameaça a segurança dos Estados Unidos não é o Governo Revolucionário de Cuba, mas o agressor e agressivo governo dos Estados Unidos.
Nós não colocamos em perigo a segurança de um único norte-americano. Nós não pomos em perigo a vida ou a segurança de uma única família norte-americana. Nós, fazendo cooperativas, reforma agrária, ranchos do povo, casas, escolas, campanhas de alfabetização e mandando centenas e centenas de professores para o interior, construindo hospitais, mandando médicos, dando bolsas de estudos, construindo fábricas, aumentando a capacidade produtiva do país, criando praias públicas, convertendo fortalezas em escolas e dando ao povo o direito a um futuro melhor – nós não pomos em perigo uma única família ou um único cidadão dos Estados Unidos da América.
Aqueles que colocam em perigo milhões de famílias, de dezenas de milhões de norte-americanos são aqueles que brincam com a guerra atômica. São aqueles que, segundo General Cardenas fala, estão brincando com a possibilidade de Nova York se tornar Hiroshima. Aqueles que estão brincando com a guerra atômica, com a sua guerra agressiva, com a sua política que viola os direitos do povo são aqueles que colocam em perigo a segurança da nação da América do norte, a segurança das vidas de  milhares de norte-americanos desconhecidos.

O que os monopolistas temem? Eles dizem que não estão seguros com uma revolução socialista por perto. Eles estão, como Khruscev fala, provando que seu sistema é inferior. Eles nem acreditam no próprio sistema. Por que eles não nos deixam em paz quando o que o nosso governo quer é paz?

A recusa do EUA em negociar


Recentemente, nosso governo publicou a afirmação de que nós estaríamos dispostos a negociar. Por que? Porque nós temos medo? Não! Nós estamos convencidos que eles temem a revolução mais do que tememos eles. Eles tem uma mentalidade que não os permite dormir quando eles sabem que existe uma revolução por perto.
Medo? Ninguém tem medo aqui. O povo que luta pela sua liberdade nunca se amedronta. Os amedrontados são os ricos. Aqueles que tem sido ricos. Nós não temos interesse no suicídio do imperialismo às nossas custas. Eles não se importam com a morte de negros, porto riquenhos ou americanos. Mas nós nos importamos com cada vida cubana. Nós estamos interessados em paz.
Nós estamos prontos para negociar. Eles falam que as condições econômicas podem ser discutidas, mas não o comunismo. Bem, de onde eles tiraram a ideia de que nós discutiríamos isso? Nós discutiríamos problemas econômicos. Mas não estamos prontos para admitir essas conversas tanto quanto a pincelada de uma pétala de uma rosa. O povo cubano é capaz de estabelecer o regime que ele quiser. Nós nunca pensamos na possibilidade de discussão do regime. Nós discutiremos apenas coisas que não afetem nossa soberania. Nós queremos negociar em nome da paz.
Aqueles que não se preocupam sobre encaminhar o povo americano para guerra estão sendo guiados por emoções. Nós não temos medo. Se eles pensam que sim, deixem eles rejeitarem aquela ideia. Nenhum cubano está com medo. Se eles pensam que discutiremos nossa política interna, deixem eles esquecerem isso. Deixem eles discutir todos os tópicos que querem discutir. Nós discutimos com os invasores, não? Bem, nós debateremos com qualquer um. Nós estamos dispostos a falar. Estamos dispostos a debater. Mas isso quer dizer que desejamos negociar nossa política interna? Claro que não. Nós estamos apenas dando um passo sensato. Isso quer dizer que a revolução irá desacelerar? Claro que não! Nós continuaremos, pegando velocidade o quanto pudermos.

Matar invasores estrangeiros

Se eles querem dizer que não se importam com a soberania dos países, deixem-nos dizê-lo. Mas estamos prontos para defender, bem como negociar. Nós estamos prontos para atirar um milhão de tiros no primeiro ianque paraquedista que tentar pousar aqui. Do primeiro momento que eles desembarcarem em nosso solo eles podem ter certeza que eles começaram a guerra mais difícil das quais eles já ouviram. Aquela guerra seria o começo do fim do imperialismo. Com a mesma disponibilidade para negociar, nós lutaremos. Até mesmo os pioneiros lutariam. Cada homem, mulher e criança tem um dever no caso de um ataque estrangeiro – matar! Se nós somos atacados por estrangeiros não haverá prisioneiros. O invasor estrangeiro deve saber que deve matar a todos nós! Enquanto um viva, ele terá um inimigo! Luta de vida ou morte! Não há meio termo! Será uma guerra sem prisioneiros!
Se os invasores desembarcam em solo cubano não iremos querer nossas vidas. Nós lutaremos até o último homem contra qualquer um que colocar os pés em nossa terra. Todos os homens e mulheres devem saber de seus deveres. Esse dever será cumprido de maneira simples e natural enquanto o povo luta uma guerra justa.
É um crime que nosso povo não seja deixado em paz para completar nosso trabalho de justiça por aqueles que outrora viveram em humilhação e miséria. É uma pena que interesses ilegítimos foram determinados a causar o mal a nosso país. Enquanto eles tentaram  cortar nossos suprimentos, eles estavam abastecendo os mercenários com armas para invadir nosso país e derramar o sangue do povo. E nessa vergonhosa tarefa, quem participou?
Eu já os falei sobre sua composição social. Padres também não faltavam. Três deles vieram. Nenhum era cubano, eles eram espanhóis. Você lembra que quando nós perguntamos eles disseram que vieram em uma missão puramente espiritual. Eles disseram que vieram em uma missão cristã. Mas revisando os seus livros nós achamos isso: um apelo para o povo por Ismael de Lugo: "Atenção católicos cubanos: as forças libertadoras desembarcaram em praias cubanas. Nós viemos em nome de Deus – como se Calvino viesse no nome de Deus – justiça e democracia para reestabelecer a pisoteada liberdade - Isso deve ser mentira. Nós viemos por causa do amor, não do ódio. Nós viemos com milhares de cubanos, os quais são católicos e cristãos – que mentira, cujo espírito é o espírito dos cruzados. (Notas do Editor: Castro continua lendo a mensagem escrita pelo Padre de Lugo...)

E esse cavalheiro não é nem cubano; ele é um espanhol falangista. Ele poderia ter economizado todos aqueles apelos e energia de guerreiro para lutar contra a guarda moura de Franco. Por que ele veio aqui com outros 3 padres falangistas espanhóis ao invés de ir para a Espanha lutar pela liberdade contra Franco, que está oprimindo o povo espanhol por 20 estranhos anos e que se vendeu  para o imperialismo ianque? Os ianques não estão lutando pela liberdade na Espanha, Nicarágua ou Guatemala. Eles são grandes amigos de Franco. E esses padres falangistas vieram aqui, quando é na Espanha que eles deveriam estar lutando pela liberdade, pelos camponeses e trabalhadores. Os padres falangistas ao invés disso vem aqui pregar contra os trabalhadores e camponeses que se livraram da exploração. E vieram três, não apenas um; e o quarto, em Escambray, é espanhol também.

Padres estrangeiros a serem expulsos

Nós vamos anunciar aqui para o povo que nos próximos dias o Governo Revolucionário passará uma lei declarando inválida qualquer permissão assegurada por qualquer padre estrangeiro nesse país. E essa lei terá uma única exceção: vocês sabem a quem? Um padre estrangeiro poderá ficar com permissão especial, aprovada pelo governo, se ele não estiver combatendo a revolução e não estiver mantendo atividades contrarrevolucionárias. Ele pode pedir permissão, e o governo poderá garantir se considerar adequado, pois existem padres estrangeiros, pela via da exceção, que não se posicionaram contra a revolução, embora a regra geral seja o contrário.
Claro, eles falarão que somos ímpios, inimigos da religião. Como eles podem dizer isso depois de um líder de um serviço eclesiástico, enquanto proclamava que ele estava chegando para realizar um serviço espiritual, também assinou um manifesto como esse – de natureza política? Pode a revolução continuar permitindo atos como esses continuarem impunes?
E deixar esses cavalheiros trazerem o inferno aqui, trazerem o inferno para a terra aqui, com a guerra criminosa, seus calvinistas, seus Soler Puigs, seus latifundiários e seus filhos privilegiados, para trazer o inferno para a terra aqui para os camponeses e trabalhadores? Podemos deixar a falange espanhola continuar promovendo derramamento de sangue e conspiração aqui por meio de seus padres? Não, nós não estamos dispostos a permitir isso. Os padres falangistas sabem agora, eles podem começar a fazer as malas (Aplausos).
Eles estão realizando atividades contrarrevolucionárias nas escolas também, envenenando as mentes  dos alunos. Eles estão formando mentes terroristas. Eles estão ensinando ódio para o país. Por que a revolução deveria tolerar isso? Seríamos culpados se deixássemos isso ir adiante.

Nacionalização das escolas privadas
Nós anunciamos aqui que nos próximos dias o governo revolucionário irá passar uma lei nacionalizando as escolas privadas. Essa lei não pode ser uma lei para um setor; será geral. Isso quer dizer que escolas privadas serão nacionalizadas; claro, não uma pequena escola, na qual uma professora dá aulas, mas escolas privadas com vários professores.
Diretores de escolas privadas mostraram diferentes tipos de conduta. Muitas diretores de escolas privadas não estão inculcando veneno contrarrevolucionário. A revolução sente como sendo seu dever organizar e estabelecer o princípio de educação gratuita para todos os cidadãos. O povo sente que ele tem o dever de treinar as futuras gerações no espírito de amor por seu país, por justiça, pela revolução.
O que deve ser feito no caso de escolas privadas que não mostraram conduta contrarrevolucionária? O governo Revolucionário indenizará aqueles diretores ou donos de escolas cuja atitude não tiver sido contrarrevolucionária, cuja atitude foi favorável para a revolução; e a revolução não indenizará nenhuma escola cujos professores estão travando uma campanha contrarrevolucionária, que foram contra a revolução.
Aos professores e empregados de todas essas escolas, serão dados trabalhos. Ou seja, os empregados e professores dessas escolas terão trabalhos garantidos. Os alunos dessas escolas poderão continuar frequentando-as, os padrões educacionais será mantido alto ou aumentado e além disso, eles  não terão de pagar absolutamente nada para frequentá-las.

Religião não é restringida

Villanueva é incluída nessa nacionalização, claro. Eles falarão que esse governo ímpio se opõe à instrução religiosa. Não senhor. Nós nos opomos é contra esses atos sem-vergonha que estão sendo cometidos e esse crime contra o nosso país. Eles podem ensinar religião, sim; nas igrejas eles podem ensinar religião.
Religião é uma coisa, política é outra. Se esses cavalheiros não fossem contra os interesses políticos do povo, não poderíamos nos importar menos com suas pastorais, a discussão de questões religiosas, etc. As igrejas podem manter-se abertas; religião pode ser ensinada aqui, Não seria muito melhor se eles se restringissem aos seus ensinamentos religiosos? Não seria melhor ter paz? Eles podem ter paz, dentro de estritos limites de respeito de acordo com o povo revolucionário e o governo. Mas eles não podem guerrear contra o povo em serviço dos exploradores. Isso não tem nada a ver com religião; tem a ver com sangue, com ouro, com interesses materiais. Eles podem ter consideração pelo povo, nos limites de respeito e direitos mútuos.
O cristianismo surgiu como uma religião dos pobres, de escravos e dos oprimidos de Roma – a religião que floresceu nas catacumbas. Era a religião dos pobres e obteu o respeito de leis. Coexistiu com o Império Romano. Então veio o feudalismo. Aquela igreja coexistiu com o feudalismo, mais tarde com monarquias absolutas, depois com repúblicas burguesas. Aqui a república burguesa desaparece; por que não deveria a mesma igreja coexistir com um sistema de justiça social que é muito superior às formas anteriores de governo? Esse sistema é muito mais cristão que o imperialismo ianque ou política burguesa, ou o Império Romano. Nós acreditamos que a coexistência é perfeitamente possível. A revolução não se opõe à religião. Eles usaram a religião como um pretexto para combater os pobres. Eles esquecem o que Cristo disse sobre ser mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico ir para o céu.

O pequeno homem de negócios protegido
Aqueles são fatos. Nós falamos, com sempre, claramente. Isso apenas quer dizer que estamos preparados para defender a revolução e continuar avançando, convencidos da justiça de nossa causa.
Nós falamos de nossa revolução socialista. Não quer dizer que o pequeno homem de negócio ou pequeno industrial precise se preocupar. Minas, combustível, bancário, usinas de açúcar, comércio de exportação e importação – a maior parte da economia – está nas mãos do povo. Dessa forma o povo pode desenvolver nossa economia. O pequeno industrial e pequeno homem de negócios podem coexistir com a revolução. A revolução sempre teve cuidado em relação aos interesses dos pequenos proprietários.
A reforma urbana é uma prova. Esse mês, todos os pequenos proprietários de terras receberão cerca de 105,000 pesos. Antigamente, se o inquilino não pagasse o aluguel, o proprietário não recebia; agora um fundo foi estabelecido para garantir que o dono da terra seja pago. A revolução terá 80 milhões de pesos por ano para construção pela reforma urbana. E quando o aluguel é a única renda desses donos de terra, a revolução determinou que depois que a casa foi integralmente paga, o dono de terra receberá uma pensão. Uma revolução socialista não quer dizer que os interesses de certos setores serão eliminados sem consideração. Os interesses dos grandes proprietários de terras, banqueiros e industriais foram eliminados. Nenhum interesse social dos níveis mais baixos da sociedade foram condenados. A revolução irá aderir à sua palavra: nenhum interesse médio será afetado sem consideração.
Pequenos empresários e industriais tem crédito hoje. A revolução não tem interesse na sua nacionalização. A revolução tem o bastante para desenvolver as fontes de riqueza que agora tem a sua disposição. A revolução sente que aqui pode existir colaboração do pequeno empresário e do pequeno industrial. Ela acredita que seus interesses  podem coincidir com aqueles da revolução. 

Contrarrevolucionários afirmaram que as barbearias seriam nacionalizadas, mesmo barracas de comida. A revolução não os tem como objetivo. A solução desses problemas será o resultado de uma longa evolução. Existe alguns problemas; algumas vezes tomates e abacaxis são vendidos na cidade a preços mais altos do que nos campo. Ainda existe uma pequena praga de atravessadores. A revolução ainda tem de tomar medidas para se livrar dos abusos dos atravessadores, para melhorar o consumo para as pessoas. Mas eu não quero que as pessoas fiquem confusas. Eu quero que todos saibam o que esperar.

O chamado para a colaboração
Basicamente a revolução já passou suas medidas. Ninguém precisa se preocupar. Por que não se juntar a esse entusiasmo, nessa proeza? Por que ainda existem cubanos aborrecidos por essa felicidade? Eu me perguntei isso enquanto assistia o desfile. Por que alguns cubanos são incapazes de entender que sua felicidade pode também ser deles? Por que eles não se adaptam à revolução? Por que não ver as suas crianças nas escolas aqui? Algumas pessoas não podem se adaptar, mas a sociedade futura será melhor do que a antiga.
Essa é a hora na qual nós, longe de usarmos o momento contra os que não entendem, devemos perguntar a eles se já não é tempo deles se juntarem a nós. 

A revolução considera necessário que eles sejam retidos. Talvez eles já tenham sido. A revolução não quer que se use força contra a minoria. A revolução quer que todos os cubanos entendam. Nós não queremos que toda essa felicidade e emoção toda apenas para nós. É a glória do povo.
Nós dissemos a todos que mentiram no passado e não entenderam. Nós francamente dizemos que nossa revolução deveria ser menosprezada pelas sanções severas contra os mercenários. Isso serve como uma arma para os nossos inimigos. Nós dizemos isso, porque nós contamos ao povo tudo o que beneficiará a revolução. Nós tivemos uma vitória moral e será maior se nós não mancharmos a nosso vitória.
As vidas perdidas nos machucam o mesmo que machucam aos outros, Mas nós devemos superar isso e falar pelo prestígio e pela nossa causa. O que está diante de nós? O risco da agressão imperialista! Grandes tarefas! Chegamos ao ponto no qual nós devemos entender que chegou o momento de fazermos o nosso maior esforço. Os próximos meses são muito importantes. Eles serão meses nos quais nós devemos fazer grandes esforços em todos os campos. Todos nós temos a tarefa de fazer o máximo, ninguém tem o direito de descansar. Com o que nós vimos hoje, nós devemos aprender que com esforço e coragem nós podemos colher magníficos frutos. E as frutas de hoje não são nada se comparadas ao que pode ser feito se nós nos empenharmos ao máximo.
Antes de concluir, eu gostaria de lembrar o que eu disse no julgamento Moncada. Aqui está o parágrafo: O país não pode ficar de joelhos implorando milagres do bezerro de ouro. Nenhum problema social é resolvido espontaneamente. Nesse momento tínhamos expressado nossos pontos de vista. 

A revolução seguiu as ideias revolucionárias daqueles que tiveram um importante papel nessa luta.
Esse é o porquê de quando um milhão de cubanos se reuniram para proclamar a Declaração de Havana, o documento expressou a essência da revolução, nossa revolução socialista. Dizia que condenava os proprietários de terra, os salários de fome, analfabetismo, falta de professores, médicos, hospitais, discriminação, exploração das mulheres, oligarquias que atrasavam o país, governos que ignoravam a vontade do povo obedecendo as ordens dos EUA, monopólios das agências de notícias ianques, leis que preveniam as massas de se organizarem e os monopólios imperialistas de riqueza. A assembleia geral do povo condenou a exploração do homem pelo homem. A assembleia geral proclamou o seguinte: o direito ao trabalho, educação, dignidade do homem, direitos civis às mulheres, previdência aos aposentados, liberdade artística, nacionalização dos monopólios. Esse é o programa de nosso revolução socialista.

Vida longa à classe trabalhadora cubana! Vida longa às nações latino-americanas! Vida longa à nação! Pátria ou morte! Venceremos!"

Tradução: equipe do Fuzil contra Fuzil

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Os 90 anos de Fidel Castro, o revolucionário real.


Em 13 agosto de 2016, Fidel Castro, o Comandante en Jefe da Revolução Cubana, completa 90 anos de vida

Fundamentalmente, aos que são jovens em nossos tempos e que conhecem um pouco da história, em um momento em que as agressões que sofrem os povos se multiplicam, quando a realidade nos impõe uma das maiores tarefas da história da humanidade, dar-se conta de que em nosso planeta, enquanto pensamos, escrevemos e lutamos, respira, vive e pensa, ao completar 90 anos, Fidel Castro Ruz é, sem dúvida, inspirador.
Fidel Castro, 15 de fevereiro de 1965.

Não porque se Fidel não estivesse fisicamente presente, como passaram e passarão a estar os grandes homens e mulheres da humanidade, seria menor sua capacidade de inspirar àqueles que almejam a honra de serem revolucionários.

Mas, porque, de forma bastante simples, o fato de Fidel permanecer por mais de 70 anos combatendo, das diversas formas, carregando fuzis, liderando seu povo, enfrentando o imperialismo, e o fato de hoje estar vivo, são capazes de nos fazer lembrar que os grandes líderes revolucionários são também homens de carne e osso, o que os torna muito mais impressionantes, muito mais reais e, paradoxalmente, seus feitos muito mais fantásticos. Saber que são homens de carne e osso nos impõe grandes responsabilidades.

É justamente essa realidade, essa materialidade de sua dedicação, que converte Fidel, como aos grandes homens e mulheres dos séculos, em exemplo a se seguir. Nem santos e nem filhos de deuses têm o poder que um homem de carne e osso tem para inspirar e impelir à luta.

Os líderes revolucionários reais não só impelem os bons ao combate, mas também assustam e atordoam aos opressores. Sua própria existência é uma constante advertência, um alerta: “Somos sim os homens e mulheres mais avançados que servem à causa dos povos, mas não somos filhos de milagres, frutos da predestinação do milênio ou do acaso, somos o simples resultado do desenvolvimento histórico da sociedade, das contradições que a luta de classes engendra. E, como nós, mais cedo ou mais tarde, muitos outros notarão as tarefas que tem de ser realizadas e arregaçarão suas mangas. Não estamos sozinhos, porque essa marcha é inevitável.”

E, dessa marcha inevitável faz parte Fidel Castro, homem de carne e osso, que tem sua própria história.

Nasceu no ano de 1926, em Birán, pequena cidade do oriente de Cuba. Filho de Ángel Castro Ruz, espanhol que era dono de terras e relativamente rico, Fidel foi alfabetizado muito cedo, pois tinha que acompanhar seu irmão mais velho à escola, ainda que não tivesse idade para frequentá-la. Logo, aos seis anos de idade, foi enviado à cidade de Santiago de Cuba para que estudasse em colégios de jesuítas.

Sua infância localiza-se em período de extremo conflito político na História de Cuba. O então sargento Fulgêncio Batista – o mesmo que seria derrubado pelo movimento liderado por Fidel 20 anos depois – já iniciava sua carreira como executor de golpes miltares, e, com apoio da embaixada dos Estados Unidos, em 1934, dissolvia, mediante os fuzis do exército, um governo fruto de lutas populares e composto por elementos nacionalistas, o Governo dos Cem dias.

Adiante, como homem forte dos Estados Unidos, Batista alternaria na cabeça do Estado representantes sob seu controle. Seria eleito presidente de Cuba em 1940, após ter, em um momento, realizado amplas perseguições e, em outro, acenado às anistias como tentativa de legitimar-se.

Em meio a tudo isso, a adolescência de Fidel seria como a de muitos outros de sua classe de origem, um tanto quanto desligada dos acontecimentos políticos, com maiores preocupações como a prática dos esportes e suas férias no campo.

Somente mais tarde suas inquietudes se fundiriam definitivamente a sua personalidade, como resultado de todo um processo de aprendizado. Processo no qual foi imprescindível sua disposição de abrir mão das ambições individualistas, típicas dos homens de sua classe e de seu entorno.

Em 1945, aos 19 anos, ingressou na Universidade, em Havana, como mais um entre tantos jovens, esportista, espirituoso, e sem qualquer experiência ou conhecimento político, exceto alguma intuição e certo sentido de justiça derivado daquele contato mais imediato com os trabalhadores no campo e a repressão aberta que a gente humilde sofria do exército.

Ao ingressar na universidade, Fidel era mais um.

“Tinha me matriculado na Escola de Direito, todos os dias eu tinha que sair para a Universidade, pegar ônibus, por vezes dois – pelo menos um sempre muito super-lotado , havia que pegá-los e descer de pressa, porque os ônibus jamais paravam, depois caminhava uns quantos quarteirões…”, como relata. (1)

Mas esse mais um, conscientemente, pouco a pouco, foi ingressando nas atividades estudantis, num local que guardava em sua História forte tradição de vínculo aos interesses das massas populares. Da Universidade haviam saído muitos daqueles que formaram o governo progressista derrubado por Batista, muitos dos que haviam lutado contra as oligarquias e ditaduras, além dos que combateram as intervenções norteamericanas e o colonialismo espanhol.

No entanto, a memória de tal tradição de lutas, às quais o jovem Fidel era simpático, encontrava realmente poucos herdeiros sinceros. A tradição estava esmorecida pelo tempo, pela politicagem e acomodação de certos partidos e políticos, que também se proliferavam no movimento estudantil. Além do mais, “era uma universidade burguesa e de pequenos burgueses, com muitos poucos jovens procedentes de classes trabalhadoras”. (2) Uma Universidade para as elites, como muitas na América Latina.

Do jovem filho de fazendeiro ao revolucionário, certamente, não foi um caminho fácil.

A primeira atividade pela qual Fidel teve contato com círculos amplos de estudantes não foi propriamente o trabalho de caráter político. Fazia algo muito mais simples: começou como um representante de turma que se dedicava com afinco.

“Acho que comecei a distinguir-me entre os restantes dirigentes da Escola de Direito porque peguei a trabalhar a sério; jamais pensei que seria ajudado com uma nota ou que faria articulações para que um aluno recebesse uma qualificação não merecida. Não se tratava de que exercesse influência no professor, mas sim que ajudasse os estudantes em questões práticas relacionadas com os estudos. (…) Minhas primeiras atividades foram desse tipo, não era um programa de reformas universitárias nem um programa político. Realizava uma série de serviços úteis aos estudantes. Não lhes dizia: 'votem em mim'”. (3)

E a seriedade desde as tarefas mais simples, a marca que seria seu caráter distintivo durante toda trajetória, fez que, pouco a pouco, encontrasse o reconhecimento de seus pares e avançasse na atividade política, sendo eleito como representante na Federação Estudantil Universitária, a FEU.

A partir daí, passou a ter contato maior com a política, aperfeiçoando seus conhecimentos e combatendo as práticas do governo que havia se instalado: a tão perversa quanto usual associação oligárquica e a corrupção institucionalizada predominante nos países atrasados, como era Cuba. Diferenciando-se dos envolvidos nas rixas partidárias, que beiravam ao gangsterismo, foi na universidade que se fez revolucionário.

Mas não como e por um passe de mágica, como se houvesse algo como uma revelação de um dom político ou de uma habilidade inata.

O que é verdadeiro e, paradoxalmente, muito mais incrível do que a explicação que beira ao místico, justamente por seu aspecto real, é o argumento oferecido pelo próprio Comandante. O que o formou como revolucionário nesse período foi sua sinceridade com aquilo que acreditava que merecia sua atenção. Foi sua consequência que fez que pegasse “a trabalhar em sério”. Trabalhar em sério, com disciplina e espírito de sacrifício, foi o que o fez revolucionário.

Foi o que fez com que, passo a passo, frente aos desafios que se impunham, o jovem Fidel fosse colocando sua própria capacidade a prova, não sem inúmeros riscos, como fizeram todos os grandes revolucionários, despindo-se em cada ação daqueles resquícios do individualismo próprio do meio de onde provinha.

Isso se ilustra, por exemplo, no fato de que, quando jovem, a atividade de Fidel não se resumiu a estar na oposição ao governo de seu país, nem de manter a posição confortável de acusador a distância. Demonstrava seu internacionalismo, ainda que não tivesse descoberto o marxismo. Notava a opressão comum e estava resolutamente ao lado dos povos latino-americanos.

Justamente por essa solidariedade – que não era só de palavras – Fidel, por meio de um comitê em solidariedade à República Dominicana, embarcou em uma expedição militar que objetivava derrubar o governo do ditador Trujillo. Aos 19 anos ingressava em sua primeira ação armada, porque levava as coisas a sério.

Pouco tempo depois, na Colômbia, organizaria um Congresso de Estudantes de toda América Latina, de cunho anti-imperialista, que coincidiu com as revoltas populares do bogotazo, quando do assassinato do candidato liberal à presidência do país, Jorge Eliecér Gaitán. Nessas revoltas, Fidel tomou parte ativa ao lado povo, juntando-se aos insurretos e combatendo. Tinha somente 21 anos.

Nesse meio do caminho, teria contato com o socialismo científico:

"As ideias do marxismo-leninismo caíram em mim como água no deserto." (4)

Desses acontecimentos ao seu trabalho como advogado na defesa desinteressada daqueles que o solicitavam; a sua resistência ao segundo golpe de Batista; ao Assalto ao Quartel Moncada; ao Desembarque do Granma; à luta na Sierra; à tomada do poder; ao combate da invasão mercenária de Girón; à posição abnegada durante a Crise dos Mísseis; à consolidação do socialismo em Cuba; à mobilização do povo em todos os momentos; à resistência no dificílimo período da queda da URSS, nota-se que Fidel forjou a si próprio em grandes combates, com o espírito que lhe é característico e que tem sua força aglutinadora. Nota-se que há algo em seu exemplo que deve ser seguido, que é universal na conduta dos revolucionários: a capacidade de doar-se, oferecendo a própria vida à causa de seu povo, a todo momento, seriamente.

Espírito tão bem sintetizado por Guevara:

“E se nós estamos hoje aqui e a Revolução Cubana está hoje aqui, é, simplesmente, porque Fidel entrou primeiro no Moncada, porque desceu primeiro do Granma, porque esteve primeiro na Sierra, porque foi à Playa Girón em um tanque, porque quando havia uma inundação houve até briga porque não o deixaram entrar… porque tem como ninguém em Cuba, a qualidade de ter todas as autoridades morais possíveis para pedir qualquer sacrifício em nome da Revolução.(5)

Mas Fidel não é um mito, é um homem real. E, dessa forma – ainda que seja comparável aos mitos, porque muitos de seus feitos não encontram qualquer desvantagem frente ao que é atribuído às figuras mais incríveis e heróicas das epopéias –, por ser homem de carne e osso, é muito maior do que todas essas figuras somadas. É maior porque é o que há de mais humano, porque respira e atua como humano, porque, por ser humano, como diz Guevera, “tem a qualidade de ter todas autoridades morais possíveis para pedir qualquer sacrifício em nome da Revolução”, porque é a prova cabal de que os homens podem realizar obras colossais.

Fidel é o homem de carne e osso que arregaçou suas mangas colocando-se a trabalhar seriamente pela causa dos povos durante mais de 70 anos. Justamente por isso, por sua seriedade de combatente incansável e leal, não só provoca calafrios nas classes dominantes, como seu exemplo conclama, a todo instante, homens e mulheres dos diversos cantos do planeta a que sirvam integralmente à causa das classes exploradas.

Os povos do mundo não poderiam ter melhor inspiração.

Equipe do Fuzil contra Fuzil.

Notas:
(1)  “Fidel Castro Ruz, Guerrilheiro do Tempo – Conversações com o líder histórico da Revolução Cubana”(2012), Katiuska Blanco Castiñera, Rio de Janeiro, Editora Ebendinger, Livro I, p.270.
(2) – Ibidem, p. 303.
(3) – Ibidem, p. 303.
(4)  Ibidem, p. 448.
(5) – “El Che en Fidel Castro, Selección temática 1959-1997” (2007), Havana, Editoria Política, p. 205-206.

domingo, 12 de junho de 2016

O plano de Estudos de Che Guevara - Carta de 1965

Carta de Che Guevara para Armando Hart Dávalos,
Dar-Es-Salaam, Tanzânia (4 / XII / 1965)

"Meu querido Secretário:

Quero parabenizá-lo pela oportunidade que te deram de ser Deus; Tem seis dias para isso. Antes que acabes e se sente a descansar (...) eu quero expor algumas ideiazinhas sobre a cultura de nossa vanguarda e de nosso povo em geral.

Neste longo período de férias, eu meti meu nariz na filosofia, coisa que há muito tenho planejado fazer. Tive minha primeira dificuldade: em Cuba nada foi publicado, se excluirmos os tijolos soviéticos que têm a desvantagem de não permitir que você pense; porque o partido fez isso para você e você deve digerir. Como método, é o mais antimarxista, mas também tendem a ser muito ruins. O segundo, e não menos importante, foi a minha ignorância da linguagem filosófica (lutei arduamente com o professor Hegel e no primeiro round me derrubou duas vezes). Por isso eu fiz um plano de estudos para mim, eu acho, pode ser estudado e melhorado muito para formar a base de uma verdadeira escola de pensamento; Já fizemos muito, mas um dia vamos ter que pensar também. O meu plano é de leituras, naturalmente, mas pode se adaptar a publicações em série da Editora Política.

Se você der uma olhada em suas publicações você vai ver a profusão de autores soviéticos e franceses que têm.

Isto é devido à comodidade na obtenção traduções e ao seguidismo ideológico. Assim não se dá cultura marxista ao povo, no máximo, a divulgação marxista, que é necessário, se a divulgação é boa (não é o caso), mas insuficiente.

Meu plano é o seguinte:

I Classicos Filosófos

II Grandes dialéticos e materialistas

III Filósofos modernos

IV Clássicos da economia e precursores

V Marx e pensamento marxista

VI Construção Socialista

VII Heterodoxos e capitalistas

VIII Polêmicas

Cada série tem independência uma da outro e pode ser desenvolvida como se segue:

I) Pega-se clássicos conhecidos e traduzidos para o espanhol adicionando um estudo preliminar sério de um filósofo, marxista se possível, e um grande vocabulário explicativo. Simultaneamente, se publica um dicionário de termos filosóficos e um pouco da história da filosofia. Talvez poderia ser Dennyk [Guevara refere-se a Dinnyk que liderou uma história da filosofia em cinco volumes] e a de Hegel. A publicação pode seguir uma ordem cronológica seletiva, ou seja, começar com um livro ou dois dos maiores pensadores e desenvolver a série de terminar nos tempos modernos, voltando ao passado com outros filósofos menos importantes e aumentando volumes dos mais representativos, etc.

II) Aqui você pode seguir o mesmo método geral, fazendo coleções de alguns dos antigos (tempo atrás eu li um estudo que foram Demócrito, Heráclito e Leucipo, feito na Argentina).

III) Aqui se publicariam os filósofos modernos mais representativos, acompanhados por estudos sérios e detalhados de gente entendida (não precisa ser de cubanos) com a crítica correspondente àquilo que corresponda às visões idealistas

V) [No original aparece o número IV riscado e corrigido como V, a carta explica-se, em seguida]. Isso já é feito, mas sem qualquer ordem e faltando obras fundamentais de Marx. Aqui seria necessário publicar as obras completas de Marx e Engels, Lenin, Stalin [sublinhado por Che no original] e outros grandes marxistas. Ninguém leu nada de Rosa Luxemburgo, por exemplo, que têm erros em sua crítica de Marx (Volume III), mas foi assassinada, e o instinto do imperialismo é superior ao nosso nesses aspectos. Também falta pensadores marxistas que logo deixaram a pista, como Kautsky e Hilfering (não se se se escreve assim) [Che refere-se ao marxista austríaco Rudolf Hilferding] que fez contribuições e muitos marxistas contemporâneos, não inteiramente escolásticos.

VI)  Construção socialista. Livros que tratam de problemas concretos, não só dos governantes atuais, mas no passado, fazendo perguntas sérias sobre as contribuições de filósofos e, acima de tudo, economistas ou estadistas.

VII) Aqui vêm os grandes revisionistas (se quiserem podem colocar Khrushchev), bem analisados, mais profundamente do que qualquer outros, e deveria estar o seu amigo Trotsky, que existiu e escreveu, aparentemente.

Além disso, grandes teóricos do capitalismo como Marshall, Keynes, Schumpeter, etc. Também discutidos exaustivamente com a explicação dos porquês.

VIII) .- Como o nome indica, este é o mais controverso, mas o pensamento marxista avançou assim. Proudhon escreveu Filosofia da Miséria e é conhecido pela existência da Miséria da Filosofia. A edição crítica pode ajudar a compreender o tempo e desenvolvimento do próprio Marx, que não tinha sido concluído ainda. Estariam aqui, Robertus e Dürhing naquele momento e, em seguida, os revisionistas e a grande polêmica do ano 20 na URSS, talvez o mais importante para nós.

Agora eu vejo que eu perdi um, então eu mudei a ordem (eu estou escrevendo muito rápido).

Seria o IV, Clássicos da Economia e precursores, onde faria a partir de Adam Smith, os fisiocratas, etc.

É um trabalho enorme, mas Cuba merece isso e eu acho que poderia tentar. Eu não te canso mais com essa conversa. Eu escrevi para você, porque o meu conhecimento dos atuais responsáveis pela orientação ideológica é pobre e, talvez, não seria prudente fazê-lo por outras considerações (não apenas pelo seguidismo, que também conta).

Bem, ilustre colega (por causa da filósofia), desejo-lhe sucesso.

Eu espero vê-lo no sétimo dia, um abraço aos abraçáveis, inclusive, de passagem, a sua cara e belicosa amizade.

R. [Ramon] "

[Rámon era o pseudônimo de Che durante o perído em que combateu na África e, posteriormente, na Bolívia]

Traduzido pela equipe do Fuzil contra Fuzil

sábado, 4 de junho de 2016

Mais uma vez a OEA - Declação do Ministério de Relações Exteriores de Cuba

Mais uma vez a OEA demonstra claramente, assim como fez nos primeiros anos da Revolução Cubana,  que serve aos interesses imperialista em Nossa América. Segue a Declaração do Ministério de Relações Exteriores de Cuba


A irmã República Bolivariana da Venezuela travou uma dura batalha diplomática e vitoriosa na Sessão Especial do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos, realizada na quarta-feira, primeiro de junho, contra o plano intervencionista do imperialismo e das oligarquias.

Também afirmou o princípio da não-intervenção nos assuntos internos dos Estados e o direito destes de escolher, sem ingerências externas, seu sistema político, econômico e social consagrado na Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, assinada pelos Chefes de Estado e de Governo na Cúpula da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos, realizada em Havana, em Janeiro de 2014.

Surpreende a maneira histérica, torpe e anti-ética pela qual o Secretário-Geral da OEA tenta obstinadamente servir interesses obscuros.

O senhor Almagro agora tenta aplicar a Carta Democrática Interamericana, em particular o seu artigo 20º, supostamente destinada a lidar contra as rupturas ou alterações graves da ordem constitucional, que não foi invocada quando do golpe militar de 2002 contra o presidente Hugo Chávez, ou para condenar golpes ou tentativas de golpe nos últimos quinze anos têm sacudido a região, exceto em um caso em 2009 em que os Estados Unidos e algumas forças de direita fizeram uma forte resistência.

Para fazer isso, sem um mandato dos Estados-Membros, atribuindo a si mesmo prerrogativas que não tem, com a ajuda de elementos da oposição golpista venezuelana e outras personagens reacionárias e de reputação duvidosa, escreveu um relatório difamatório e intervencionista, em violação dos procedimentos, fazendo tal relatório público.

Tudo parecia servido para uma vitória fácil, mas o Secretário-Geral, os burocratas da OEA e seus mentores truculentos esqueceram de que não vivemos em 1962, quando, com a cumplicidade vergonhosa foi julgada e e condenada a Cuba socialista.

Fez a diferença o tom das discussões, fortes alegações de papel indecente do Secretário-Geral, as posições firmes dos países irmãos da ALBA-TCP, argumentos sereno daqueles que escolheram o diálogo, o respeito entre as nações e paz como regras da diplomacia, e a medida mas declarada resistência Caribenha contra o convite traiçoeiro contra a Venezuela.

O Ministério de Relações Exteriores considera que o ocorrido agora em Washington é mais uma prova de que a nossa América mudou, ainda que a OEA continue a ser um instrumento de dominação irreformável de dominação dos Estados Unidos sobre os povos da América Latina e do Caribe, e recorda a declaração do Presidente Raul Castro Ruz, em Dezembro de 2008, reiterada no recente VII Congresso do Partido Comunista de Cuba, quando parafraseando José Martí disse que "antes de que Cuba volte a OEA o mar do Norte se unirá ao mar do Sul e nascerá uma serpente de ovo da àguia".

À Revolução Bolivariana e chavista, solidária e generosa, ao Presidente Nicolás Maduro Moros, à união civico-militar e a seu bravo povo, reiteramos mais uma vez o apoio total do povo e do Governo Revolucionário de Cuba e nossa fé inabalável no triunfo de sua causa justa.

Ministério de Relações Exteriores

Havana, 02 de junho de 2016

Tradução equipe Fuzil contra Fuzil

domingo, 22 de maio de 2016

Che Guevara - Pronunciamento ao Conselho Interamericano de Estudos Sociais - 8 de agosto de 1961) - Parte I

Contexto: "Entre os dias 5 e 17 de agosto de 1961, reuniu-se em Punta del Este - URU, uma reunião do CIES para debater a Aliança para o Progresso, um programa de assistência ao desenvolvimento da América Latina visando a contenção do comunismo na região. A figura de maior destaque desta reunião foi Ernesto Che Guevara. ."*



Cuba não admite que a economia seja separada da política

"Senhor Presidente, senhores delegados: 

Como todas as delegações, devemos iniciar com um agradecimento ao governo e ao povo do Uruguai pelo cordial acolhimento que temos recebido nesta visita.

Gostaria também de agradecer pessoalmente ao senhor Presidente da assembleia pelo presente que nos fez das obras completas de Rodó [1], assim como explicar-lhe que não iniciamos esta exposição com uma citação desse grande americano por dois motivos. O primeiro é que voltaremos a Ariel [2] depois de muitos anos para procurar algo que representará, no momento atual, as ideias de alguém que mais do que uruguaio é nosso, americano, americano do rio Bravo em direção ao sul. [3]

E não o trouxe porque Rodó manifesta em todo seu Ariel a luta violenta e as contradições dos povos latino-americanos contra a nação que já faz cinquenta anos também está interferindo em nossa economia e em nossa liberdade política.

E a segunda razão, senhor Presidente, é que o presidente de uma das delegações que aqui se encontra nos deu de presente uma citação de Martí [4] para iniciar sua intervenção.

Responderemos, pois, ao Martí com Martí, mas com o Martí anti-imperialista e anti-feudal, que morreu em face às balas espanholas, lutando pela liberdade da sua pátria e tratando de impedir com a liberdade de Cuba que os Estados Unidos caíssem sobre a América Latina, como dissera em uma de suas últimas cartas.

Naquela Conferência Monetária Internacional, que o senhor presidente do banco recordou, falando dos 70 anos de espera do Banco Interamericano em sua exposição inaugural, dizia Martí:

“"Aquele que fala em união econômica, fala em união política. O povo que compra, manda. O povo que vende, serve. É preciso equilibrar o comércio para garantir a liberdade. O povo que quer morrer vende a apenas um povo, e o que quer salvar-se vende a mais do que um. O influxo excessivo de um país no comércio de outro se transforma em influxo político. A política é obra dos homens, que condicionam seus sentimentos a seus interesses ou sacrificam parte de seus interesses em nome de seus sentimentos. Quando um povo forte lhe dá de comer a outro, serve-se dele. Quando um povo forte quer combater outro, compele à aliança e a que lhe sirvam os que dele precisam. (...) O povo que quiser ser livre, que seja livre em seus negócios. Distribua seus negócios entre países igualmente fortes. Se há de preferir algum deles, prefira o de que menos precise. (...) Nem uniões da América contra a Europa, nem com a Europa contra um povo da América. A situação geográfica de viver em conjunto na América não obriga, a não ser na mente de algum candidato ou algum secundarista, à existência de unidade política. O comércio caminha pelas vertentes da terra e da água e em busca de quem tem algo para por ele trocar, seja monarquia ou república. A união com o mundo e não com parte dele; não com uma parte dele contra outra. Se algum ofício possui a família das repúblicas da América, não é o de partir de sobre alguma delas contra as repúblicas futuras.”" 

Esse era Martí faz 70 anos, senhor Presidente.

Pois bem. Cumprindo o dever elementar de evocação e retribuindo a gentileza ao senhor delegado que a fizera para nós anteriormente, passamos à parte fundamental de nossa intervenção, à análise de por que estamos aqui, participando da conferência. E devo dizer, senhor Presidente, que discordo, em nome de Cuba, de quase todas as afirmações que foram feitas, mesmo não sabendo se de todos os pensamentos íntimos de cada um.

Devo dizer que Cuba interpreta que esta é uma conferência política, que Cuba não admite que a economia seja separada da política e que compreende que caminham constantemente em conjunto. Por isso não é possível que haja técnicos que falem de técnicas quando está em jogo o destino dos povos. E vou explicar, além disso, o porquê desta ser um uma conferência política, porque todas as conferências econômicas são políticas; mas, esta é sobretudo política porque é concebida contra Cuba e é concebida contra o exemplo que Cuba representa em todo o continente americano. 

E se não é assim, no dia 10, no Forte Amador, zona do Canal, o general Becker, enquanto instrui uma série de militares latino-americanos na arte de reprimir os povos, fala da Conferência Técnica de Montevidéu e diz que é preciso ajudá-la. Mas isso não é nada; na mensagem inaugural de 5 de agosto , o presidente Kennedy afirmou:

“"Os senhores, os participantes desta conferência, atravessam um momento histórico na vida deste hemisfério. Esta reunião é mais do que uma discussão de temas econômicos ou uma conferência técnica sobre o desenvolvimento: constitui, na realidade, uma demonstração da capacidade das nações livres para resolver os problemas materiais e humanos de todo o mundo.”"

Eu poderia seguir com a fala do senhor Primeiro Ministro do Peru, na qual se refere a temas políticos também, mas, para não cansar os senhores delegados, já que prevejo que minha intervenção será um tanto quanto longa, irei referir-me a algumas afirmações feitas pelos técnicos, aos quais colocamos as devidas vírgulas, do ponto V de nossas pautas. Na página 2, no final, como conclusão definitiva, está escrito: “"estabelecer, no plano hemisférico e nacional, procedimentos regulares de consulta com os comitês assessores sindicais, com o objetivo de que possam cumprir um papel influente na formulação política dos programas que se aprovam na Reunião Extraordinária.”"

E para reafirmar o que digo, para não fique nenhuma dúvida quanto ao meu direito a falar de política, que é o que penso fazer, em nome do governo de Cuba, uma citação da página 7 desse mesmo informe do ponto V em discussão:

"“A demora em aceitar o dever incumbido aos meios de informação democrática, com o fim de defender os valores essenciais de nossa civilização, sem fraquejar nem compromisso de ordem material, significaria um dano irreparável para a sociedade democrática e o perigo iminente da desaparição das liberdades de que hoje gozam, como ocorreu em Cuba .– Cuba, com todas as letras , onde hoje apenas existem meios de imprensa, rádio, televisão e cinema controlados conforme a ordem absoluta do Governo.”"

Quer dizer, senhores delegados, que no informe a ser discutido se julga Cuba a partir do ponto de vista político: pois bem, a partir o ponto de vista político Cuba dirá todas as suas verdades e, além disso, a partir do ponto de vista econômico também.

Estamos de acordo em apenas uma coisa com o informe do ponto V dos senhores técnicos, com apenas uma frase, que define a situação atual: “uma nova etapa começa nas relações entre os povos da América”, diz o informe e é correto. Nada mais do que essa nova etapa começa sob a luz de Cuba, Território Livre da América, e esta Conferência e o tratamento especial que tem recebido todas as delegações e os pontos positivos que sejam aprovados possuem todos o nome de Cuba, gostem ou não gostem disso os beneficiários, pois houve uma transformação qualitativa na América, que é que pode um dia levantar-se em armas, destruir um exército opressor, implantar um novo exército popular, colocar-se diante do monstro invencível, esperar o ataque do monstro e derrotá-lo também. E isso é algo novo na América, senhores: isso é o que o faz falar esta linguagem nova e que as relações se façam mais fáceis entre todos, menos, naturalmente, entre os dois grandes rivais desta Conferência.

Cuba, neste momento, não pode sequer falar apenas da América isoladamente. Cuba é parte de um mundo que está em tensão, angustiado, porque não sabe se uma das partes – a mais fraca ou a mais agressiva –, cometerá o erro burro de desencadear um conflito que seria necessariamente tolo. E Cuba está atenta, senhores delegados, pois sabe que o imperialismo sucumbiria envolto em suas próprias chamas, mas que Cuba também iria sofrer em suas carnes o preço da derrota do imperialismo, e espera que esta ocorra por outros meios. Cuba aspira a que seus filhos vejam um futuro melhor e a não ter que cobrar o preço da vitória às custas de milhões de seres humanos destruídos pela metralhadora atômica.

A situação está tensa no mundo. Estamos aqui reunidos não apenas por Cuba, longe disso. O imperialismo precisa fortalecer sua retaguarda, já que a batalha está por todos os lados, em um momento de profunda tensão. 

A União Soviética reafirmou sua decisão de assinar a paz em Berlim, e o presidente Kennedy anunciou que pode ir até a guerra por Berlim. Mas não há apenas Berlim, não há apenas Cuba: há o Laos, o Congo, por outros lados, onde Lumumba foi assassinado pelo imperialismo [5]; há o Vietnã dividido, há a Coreia dividida, a ilha Formosa [6] nas mãos da quadrilha de Chiang Kai-Chek, a Argélia sangrada, que agora pretendem dividi-a também, e a Tunísia, cuja população foi metralhada no outro dia por cometer o “crime” de querer reivindicar seu território. 

Assim é o mundo hoje, senhores delegados, e é assim que participamos nesta conferência para que os povos caminhem em direção a um futuro feliz, de desenvolvimento harmônico, ou que se convertam em apêndices do imperialismo na preparação de uma nova e terrível guerra, ou, se não, também que se mutilem em lutas internas quando os povos – como quase todos vocês o anunciaram – cansados de esperar, cansados de serem enganados mais uma vez, iniciem o caminho que Cuba uma vez iniciou; o de tomar as armas, o de lutar dentro do território, o de tirar-lhe armas ao exército inimigo que representa a reação e o de destruir, até seus fundamentos, toda uma ordem social que está construída para explorar o povo.

A história da Revolução Cubana é curta em anos, senhor Presidente, e rica em feitos positivos, e rica também em conhecer a amargura das agressões. Simplesmente faremos alguns apontamentos para que se entenda com claridade que há uma longa corrente que nos faz desembocar aqui.

Em outubro de 1959, recém tinha sido feita a Reforma Agrária como medida econômica fundamental do Governo Revolucionário. Aviões piratas, que partiam desde os Estados Unidos, voaram sobre o território de Havana e, como consequência dos próprios projéteis que lançaram, mais do que o fogo de nossas baterias antiaéreas, houve duas mortes e uma centena de feridos. Logo, ocorre o incêndio dos campos de cana, que é uma agressão econômica, uma agressão a nossa riqueza, sendo negada pelos Estados Unidos até que é derrubado um avião – com piloto e tudo – e demonstrou-se, indiscutivelmente, a procedência dessas aeronaves piratas. Dessa vez, o governo norte-americano teve a gentileza de pedir desculpas. Foi bombardeado, também, por essas aeronaves, o central canavieiro Espanha, em fevereiro de 1960.

Em março desse mesmo ano, o navio La Coubre, que trazia armas e munições da Bélgica, explodiu nos portos de Havana, em um acidente que os técnicos catalogaram como sendo internacional, e que produziu 100 mortos.

Em maio de 1960, o conflito com o imperialismo fez-se frontal e agudo. As companhias de petróleo que operavam em Cuba, invocando o direito da força e desdenhando as leis da república, que especificavam de forma clara suas obrigações, negaram-se a processar o petróleo que havíamos comprado na União Soviética, no uso de nosso livre direito a comercializar com o mundo inteiro e não com uma parte dele, como dizia Martí.

Todos sabem como respondeu a União Soviética, mandando-nos, com um verdadeiro esforço, centenas de embarcações para transportar 3.600.000 toneladas anuais – o total de nossa importação de petróleo não refinado, e manter funcionando nossa vida interna, nossas fábricas, enfim, todo o aparelho industrial que é movido hoje a partir do petróleo.
Em julho de 1960 ocorre a agressão econômica contra o açúcar cubano, que alguns governos não viram ainda. As contradições se agravam e ocorre a reunião da OEA na Costa Rica, em agosto de 1960. Ali – em agosto de 1960, repito , é declarado que condena-se... Para dizê-lo em termos exatos: "“condena-se energicamente a intervenção, ainda quando seja condicionada, de uma potência extracontinental em assuntos das repúblicas americanas, e declara-se que a aceitação de uma ameaça de intervenção extracontinental por parte de um Estado americano põe em perigo a solidariedade e a segurança americanas, o que obriga a Organização dos Estados Americanos a desaprová-la e repudiá-la com a mesma energia.”"

Por assim dizer, os países irmãos da América, reunidos na Costa Rica, nos negaram o direito de que nos defendessem. É uma das mais curiosas negociações que já foram produzidas na história do direito internacional. Naturalmente que nosso povo é um pouco desobediente diante da voz das assembleias e reuniu-se na assembleia de Havana aprovando, por unanimidade – mais de um milhão de mãos levantadas ao céu, um sexto da população total do país –, a declaração que foi denominada Declaração de Havana [7], na qual, em alguns de seus pontos, expressa-se:  

"A Assembleia Geral Nacional do Povo reafirma" e está certa de fazê-lo como expressão de uma opinião comum aos povos da América Latina –, que "a democracia não é compatível com a oligarquia financeira, com a existência da discriminação do negro e os desmandos do Ku Klux Klan, com a perseguição que privou de seus cargos cientistas como [Robert Julius] Oppenheimer, que impediu durante anos que o mundo escutasse a voz maravilhosa de Paul Robeson, preso em seu próprio país, que levou à morte, sob o protesto e o espanto do mundo inteiro e a pesar do apelo de governantes de diversos países e do Papa Pío XII, os esposos Rosenberg. "

"A Assembleia Geral Nacional do Povo de Cuba expressa a convicção cubana de que a democracia não pode consistir somente no exercício de um voto eleitoral que quase sempre é fictício e está condicionado por latifundiários e políticos profissionais, mas sim no direito dos cidadãos de decidir, como agora o faz esta assembleia do povo, seus próprios destinos. A democracia, além disso, só existirá na América Latina quando os povos sejam realmente livres para escolher, quando os humildes não sejam limitados pela fome e pela desigualdade social, pelo analfabetismo e pelos sistemas jurídicos, à mais danosa impotência.”" 

Além disso, naquele momento “"A Assembleia Geral Nacional do Povo de Cuba, condena, em suma, a exploração do homem pelo homem."” 

Aquela foi uma declaração de nosso povo, feita diante da face do mundo, para demonstrar nossa decisão de defender com as armas, com o sangue e com a vida, nossa liberdade e nosso direito a dirigir os destinos do país na forma que nosso povo considerou más conveniente. 

Vieram depois muitas escaramuças e batalhas verbais às vezes, com os acontecimentos, outras, até que em dezembro de 1960 a cota açucareira cubana no mercado americano foi definitivamente cortada. A União Soviética respondeu na forma que os senhores conhecem, outros países socialistas também assinaram contratos para que fossem vendidas em todo o campo socialista 4 milhões de toneladas, com um preço preferencial de quatro centavos, o que, naturalmente, salvou a situação de Cuba, que é até hoje tão monoprodutora, desgraçadamente, como a maioria dos povos da América, e tão dependente de um só mercado, de um só produto– "neste momento", como o são hoje os demais países irmãos. 

Parecia que o presidente Kennedy inaugurava a nova época de que tanto se tem falado, e a pesar de que também a luta verbal tinha sido dura entre o presidente Kennedy e o Primeiro Ministro de nosso governo, esperávamos que as coisas melhorassem. O presidente Kennedy pronunciou um discurso no que se revelavam claramente uma serie de atitudes a serem tomadas na América, mas parecia anunciar ao mundo que o caso de Cuba devia ser considerado como algo já cristalizado. 

Nós estávamos mobilizados naquela época, depois do discurso de Kennedy, e no dia seguinte ordenou-se a desmobilização. Desgraçadamente, no dia 13 de março de 1961, o presidente Kennedy falava da Aliança para o Progresso [8]. Houve nesse mesmo dia, além disso, um ataque pirata a nossa refinaria em Santiago de Cuba, colocando em perigo as instalações e levando a vida de um de seus defensores. Estávamos, pois, diante de uma situação de fato. 

Naquele discurso, que não tenho duvidas de que será memorável, Kennedy falava também que esperava que os povos de Cuba e da República Dominicana, pelos quais ele manifestava uma grande simpatia, pudessem integrar-se no seio das nações livres. Um mês depois, ocorria o de Playa Girón, e poucos dias depois era assassinado misteriosamente o presidente Trujillo [9]. Nós sempre fomos inimigos do presidente Trujillo, simplesmente estabelecemos o fato cru, e que não foi esclarecido de forma alguma até hoje. 

Depois, estabeleceu-se uma verdadeira obra prima de beligerância e ingenuidade política, que passou a ser chamada “"Livro Branco"” de acordo com as revistas que tanto falam dos Estados Unidos, até provocar a ira do presidente Kennedy. Seu autor é um de seus notáveis assessores da delegação norte-americana, que está hoje conosco. É uma acusação cheia de tergiversações sobre a realidade cubana, que estava concebida para a preparação já encaminhada. 

“"O regime de Castro representa um perigo para a autêntica revolução da América...”", porque a palavra revolução também necessita, como dizia algum dos membros da presidência, limpar os fundos de vez em quando. 

“"O regime de Castro é resistente em negociar amistosamente..."”, a pesar de que muitas vezes dissemos que sentaríamos em pé de igualdade para discutir nossos problemas com os Estados Unidos, e aproveito a oportunidade agora, em nome de meu governo, senhor Presidente, para afirmar, mais uma vez, que Cuba está disposta a sentar e discutir em pé de igualdade tudo o que a delegação dos Estados Unidos queira discutir, desde que sobre o princípio estrito de que não haja condições prévias. Ou seja, nossa posição é claríssima a esse respeito. 

Se chamava, no "“Livro Branco"”, o povo de Cuba à subversão e à revolução “"contra o regime de Castro”", mas, entretanto, no dia 13 de abril, o presidente Kennedy, mais uma vez, manifestava-se e afirmava categoricamente que não invadiria Cuba e que as forças armadas dos Estados Unidos não interfeririam nunca nos assuntos internos de Cuba. Dois dias depois, aviões desconhecidos bombardeavam nossos aeroportos e reduziam a cinzas a maior parte de nossa força aérea, ultrapassada, remanescente do que haviam deixado os batistianos em sua fuga. 

O senhor [Adlai] Stevenson, no Conselho de Segurança, deu enfática certeza de que eram pilotos cubanos, de nossa força aérea, “"descontentes com o regime de Castro"”, os que tinham cometido tal coisa e afirmou ter conversado com eles. 

No dia 19 de abril ocorre a fracassada invasão, na qual nosso povo inteiro, compacto em pé de guerra, demostrou mais uma vez que há forças maiores que a força indiscriminada das armas, que há valores maiores que os valores do dinheiro, e se lançou em massa pelas estreitíssimas ruelas que levavam ao campo de batalha, sendo massacrados em seu caminho pela superioridade aérea inimiga. Nove pilotos cubanos foram os heróis de aquela jornada, com as velhas máquinas. Dois deles deram suas vidas; sete são testemunhas excepcionais do triunfo das armas da liberdade. 

Já chega de Playa Girón, para não falar mais nada sobre isto, porque {a confesión de parte relevo de pruebas” [10], senhores delegados, o presidente Kennedy tomou para si a responsabilidade total da agressão. E, além disso, talvez nesse momento não se lembrou das palavras que havia pronunciado poucos dias antes. 

Poderíamos pensar nós que havia acabado a história das agressões. Como dizem os jornalistas, irei contar-lhes uma notícia quente. No dia 26 de julho deste ano, grupos contrarrevolucionários armados na Base Naval de Guantánamo iriam esperar o comandante Raúl Castro em dois lugares estratégicos, para assassiná-lo. O plano era inteligente e macabro. Atirariam no comandante Raúl Castro enquanto ia pela estrada, de sua casa à manifestação com a qual celebramos nossa data revolucionária. Se fracassassem, dinamitariam a base, ou melhor dizendo, fariam explodir as bases já dinamitadas do palco de onde presidiria nosso companheiro Raúl Castro essa manifestação patriótica. E poucas horas depois, senhores delegados, morteiros norte-americanos, desde o território cubano, começariam a fazer disparos sobre a Base de Guantánamo. O mundo inteiro, então, teria uma explicação clara para a coisa, os cubanos, exasperados, porque em suas rixas particulares "um desses “comunistas que existem lá"” foi assassinado, começavam a atacar a Base Naval de Guantánamo, e os pobres Estados Unidos não teriam alternativa a não ser defender-se. 

Esse era o plano, que nossas forças de segurança, muito mais eficazes do que era possível supor, descobriram faz alguns dias. 

Pois bem. Por tudo isto que relatei é por que considero que a Revolução cubana não pode vir a esta assembleia de ilustres técnicos a falar de coisas técnicas. Eu sei que os senhores pensam que além disso é porque não sabem, e talvez tenham razão. Entretanto, o fundamental é que a política e os acontecimentos, tão teimosos que constantemente estão presentes em nossa situação, nos impedem de vir falar de números ou analisar as perfeições dos técnicos do CIES. 

Há uma série de problemas políticos que estão circulando. Um deles é político-econômico, é o dos tratores. Quinhentos tratores não é um valor de troca. Quinhentos tratores é o estimado pelo nosso Governo que pode permitir-lhe reparar os danos materiais que causaram os 1200 mercenários. Não pagam nem uma vida, porque as vidas de nossos cidadãos não estamos acostumados a medi-las em dólares ou em equipamentos de qualquer tipo. E muito menos a vida das crianças que morreram em Playa Girón, das mulheres que morreram em Playa Girón. 

Mas nós avisamos que se os senhores consideram uma transação odiosa do tempo da pirataria, o fato de trocar-se seres humanos – -a quem nós denominamos vermes- –, por tratores, poderíamos fazer a transação de seres humanos por seres humanos. Comentamos aos senhores dos Estados Unidos, lhes lembrávamos do grande patriota Albizu Campos [11], já moribundo depois de anos e anos estando em uma masmorra do império, e lhes oferecemos o que quisessem pela liberdade de Albizu Campos; lembramos aos países da América que tivessem presos políticos em suas prisões que poderíamos fazer a troca, ninguém respondeu. 

Naturalmente, nós não podemos forçar essa troca. Está, simplesmente, à disposição dos que pensam que a liberdade dos "“valorosos"” contrarrevolucionários cubanos "–o único exército do mundo que se rendeu completamente, quase sem baixas"–, quem pense que esses sujeitos devem estar em liberdade, pois que deixe em liberdade seus presos políticos, e toda América estará com suas prisões resplandecentes, ou, pelo menos, com suas prisões políticas sem preocupações. 

Há também um outro problema, também de índole político-econômica. Ocorre, senhor Presidente, que nossa frota aérea de transporte está ficando, avião por avião, nos Estados Unidos. O procedimento é simples. Sobem algumas damas com armas ocultas nas roupas, as dão aos seus cúmplices, os cúmplices assassinam o guardião, colocam a pistola na cabeça do piloto, o piloto ruma em direção a Miami, e uma companhia, legalmente, evidentemente – "pois nos Estados Unidos tudo é feito legalmente" –, estabelece um recurso por dívidas contra o Estado cubano e então o avião é confiscado. 

Entretanto, ocorre que houve um dos tantos cubanos patriotas – "além disso houve um norte-americano patriota, mas esse não é nosso"– que andava por aí, e ele sozinho, sem que ninguém lhe dissesse nada, decidiu superar os roubadores de bimotores, e trouxe às praias cubanas um quadrimotor lindo. Naturalmente, nós não vamos utilizar esse quadrimotor, que não é nosso. A propriedade privada nós a respeitamos, mas exigimos o direito de que nos seja respeitada, senhores; exigimos o direito de que não haja mais farsas; o direito de que haja órgãos americanos que possam falar e dizer-lhes aos Estados Unidos: “Senhores, os senhores estão cometendo uma vulgar injustiça; não se pode tirar os aviões de um Estado, mesmo que esteja contra os senhores; esses aviões não são seus, devolvam esses aviões, ou serão sancionados.” 

Naturalmente, sabemos que, desgraçadamente, não há organismo interamericano que tenha essa força. Apelamos, entretanto, neste augusto conclave, ao sentimento de equidade e justiça da delegação dos Estados Unidos, para que seja normalizada a situação dos roubos sucessivos de aviões. 

O Presidente do conselho interrompe o delegado de Cuba

Senhor Presidente: "A presidência observa que não se pode fazer nenhum tipo de manifestação." 

Continua



Notas:

* Leonardo da Rocha Botega, em "A VISITA DO REVOLUCIONÁRIO ERRANTE: CHE GUEVARA NA ARGENTINA E NO BRASIL"


[1] José Enrique Rodó, escritor uruguaio que pregava a formação de uma cultura independente da hegemonia do imperialismo norte-americano para o continente latino-americano.

[2] Obra de Rodó na qual apresenta suas concepções.

[3] O rio Bravo faz parte da fronteira entre México e Estados Unidos. Che refere-se aqui ao continente latino-americano. 

[4] Um dos principais líderes cubanos nas guerras de independência contra a Espanha.

[5] Patrice Lumumba foi um dos principais líderes anti-imperialistas do Congo, na luta contra o colonialismo Belga. Foi capturado, torturado e assassinado em janeiro de 1961, após um golpe de Estado liderado pelo coronel Joseph Mobutu. Em seu assassinato e no golpe de Estado houve participação dos Estados Unidos e da Bélgica, enquanto Lumumba tratava de fugir para o leste do país. 

[6] Atual Taiwan.

[7] Posteriormente, veio a chamar-se “Primeira Declaração de Havana”.

[8] Programa de “ajuda” mútua desenvolvido pelos Estados Unidos na América Latina, cujo conteúdo, na prática, era uma forma de buscar contrapor a influência da Revolução Cubana no continente.

[9] Então presidente da República Dominicana.

[10] Expressão em espanhol que quer dizer que, quando alguém confessa um ato ou um crime, o assunto está superado.

[11] Albizu Campos é considerado o maior líder da independência de Porto Rico, preso diversas vezes por essa atividade. Foi preso por última vez em 1954, sofrendo um derrame em 1956. Afirmava que havia sido objeto de experiências com radiação enquanto estava preso. O doutor Orlando Damuy, então presidente da Associação de Câncer de Cuba viajou à ilha e confirmou que queimaduras presentes no corpo de Albizu eram devido a radiação. Em 1994, durante o governo de Bill Clinton, o Departamento de Energia norte-americano admitiu que havia efetivamente realizado testes com radiação em seres humanos durante as décadas de 50 a 70. Solto em novembro 1964, Albizu morreu em abril de 1965. Em seu enterro havia 75 mil pessoas.